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Especial

Ainda sobre o ‘Setembro Amarelo’

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01/10/2019 17h32
Por: Moises Pacheco

Estamos chegando ao fim de mais um mês de setembro, que traz, desde 2015, uma campanha brasileira de combate ao suicídio. Essa foi idealizada e organizada pelo Centro de Valorização à Vida (CVV), dos Conselhos Federais de Medicina e de enfermagem (CFM e COFEN, respectivamente).

A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio, e divulgar o tema alertando a população sobre a importância de sua discussão.  O mês de setembro foi escolhido devido ao fato de que, desde 2003, o dia 10 de setembro tornou-se o dia mundial de combate ao suicídio.

Então, vamos falar sobre o assunto propriamente dito: suicídio ou morte autoprovocada, dano, desgraça, destruição, fracasso, infelicidade, perdição, ruína, autodestruição, autocídio, autoextermínio, autoquíria.

Vivemos em uma sociedade onde esconder problemas ao invés de tratá-los os fazem mais “fortes”; onde temos uma geração que é acostumada com o “ter” sendo mais importante do que “ser”; e onde ter problemas, falhas ou cometer erros é algo condenatório, o que torna o ser humano imperdoável.

Todos esses fatores geram uma cobrança da sociedade em que as falsas ilusões de pessoas perfeitas, famílias perfeitas e sociedade perfeita são produzidas. Precisamos, porém, ter a consciência de que cometer erros é comum, e que precisamos urgentemente  entender que é necessário falar sobre erros, falhas e defeitos, lembrar que não existe ser humano perfeito e indestrutível.

Mas o que faz uma pessoa provocar a própria morte? Ou suicidar-se (que é o termo mais comum e usado)? Falência? Frustração? Fraqueza emocional? Abandono? Amor não correspondido? Falta autoaceitação quando toma consciência do que é? Divórcio? Falta de autoperdão? Poderia enumerar vários fatores aqui para que pudéssemos chegar a um denominador comum sobre saúde mental.

 A Organização Mundial de Saúde (OMS) define “saúde” como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de afecções ou enfermidades”.

Preocupamo-nos com o físico e o social, algo que é visível aos olhos de todos, mas o mental é algo particular. É possível disfarçar dor e sofrimento mental. Nós brasileiros achamos que médico psiquiatra é para pessoas “doidas”, e que psicólogo é frescura de rico que não sabe com que gastar o seu dinheiro. Graças a toda mobilização que vem acontecendo durante estas campanhas, esses tabus vem sendo quebrado, todavia, existe um caminho longo a ser percorrido.

Precisamos nos cobrar menos, entender que precisamos passar por momentos difíceis e perceber que cada luta vencida nos deixa mais fortes, precisamos ser ouvidos e entender que uma simples tristeza sem causa aparente pode ser um problema com solução. Precisamos melhorar o acesso aos nossos centros de apoio psicológicos e sociais. Precisamos aprender a falar do que sentimos sem medo de sermos julgados. Precisamos depender menos de aprovações de pessoas que vivem ao nosso redor. Precisamos deixar de emitir juízo sobre a vida do próximo. Precisamos cuidar mais das nossas vidas e esquecer as escolhas dos que vivem perto de nós. Precisamos ser abrigo quando formos chamados. Precisamos amar o próximo da forma que ele é. Precisamos sair da bolha de nossas vidas e encontrar algo que nos motive a acordar todos os dias e a darmos sentido à vida, olhando em que posso ser útil para aqueles que estão perto de mim. Precisamos entender que haverá dias em que você é quem vai precisar de tudo descrito neste artigo, e tendo a certeza que isso não te faz pior do que ninguém, bem como de que todos nós temos limites, e, quanto mais nos amamos e nos conhecemos, esses limites se tornam mais evidente e nossas vidas e ações.

E, se você que estiver lendo esse artigo, e já teve vontade de provocar a própria morte, como autor deste texto, gostaria de dizer a você, que não é a primeira pessoa, e que talvez esse sentimento não seja a única vez ou a última vez que passará em sua mente, e que isso não depende de você, mas a forma com que irás reagir à ideia ou vontade, essa sim, depende somente de você.

Então lhe falo que vale à pena procurar ajuda e falar sobre o que sente, sempre sendo muito honesto com você mesmo, e, assim, tendo a certeza que a ajuda virá, que ninguém neste mundo está sozinho e que sempre haverá alguém capaz de lhe ouvir, de lhe entender, lhe aceitar e lhe amar exatamente da forma que você é. Lembrando, sempre que eu preciso, amar a mim primeiro, além de me aceitar para poder amar o próximo e o aceitá-lo.

Que seja doce, leve e sincero, que seja alegre, risonho e afetuoso, que seja simples, mas verdadeiro, que seja você, eu e todos nós.Que sejamos fortes, mas que nos seja permitido chorar, e que chorar não seja sinônimo de fraqueza, que caiam lágrimas, mas que também  possam ser lágrimas de alegria, que seja real mas que tenha ficção.

Que tenhamos lutas para que assim possamos nos orgulhar de nossas vitorias e aprender com nossas derrotas, que sejamos tentados para que tenhamos a oportunidade de vencer as tentações, que em família tenhamos dificuldades e momentos difíceis, para que fiquemos juntos e unidos como nunca estivemos, que tenha amor, paz, carinho, aventuras e amizade, para tenhamos momentos que fiquem em nossas memórias para sempre e tenhamos boas histórias para contar e momentos marcantes para relembrar.

Que sintamos saudades, para que possamos valorizar os momentos com as pessoas quando estiverem presentes, que tenha choro, mas que exista um ombro amigo para que possamos chorar, que exista amor, paixões, beijos e abraços. Que seja só amor… amizade... paz.. Amor Verdadeiro... Amor próprio.... Que possamos ter objetivos, planos e sonhos, para que possamos ir à luta e, de forma justa e honesta, possamos conquistar. Que possamos amar e sermos amados apesar de todas nossas falhas e de nossos defeitos.

Que possamos lembrar do setembro amarelo não só no próximo ano, mas que possamos nos preocupar conosco e com o próximo o ano inteiro, por meio de gestos que possam fazer bem a si mesmo e ao próximo, e que não precise chegar 2020 para falar de SUICIDIO. 

Jamyson Macedo é Enfermeiro Coordenador e RT(Responsável Técnico)  da Upa 24 Horas , possui  graduação   em UTI , Docência  do Ensino Superior, MBA em Gestão  em Saúde,  Mestre em Gestão de  programas e processos de   saúde.

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